Selected Poetry, 1937–1990

Selected Poetry, 1937–1990

by João Cabral de Melo Neto, Djelal Kadir

NOOK BookBilingual Portuguese-English ed. (eBook - Bilingual Portuguese-English ed.)

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Overview

<P>This bilingual anthology brings together a representative selection from more than a half century of this distinguished Brazilian poet's lifetime work. Along with previously translated poems are many others in English for the first time. The remarkable group of poets and translators includes Elizabeth Bishop, Alastair Reid, Galway Kinnell, Louis Simpson, and W. S. Merwin.</P>

Product Details

ISBN-13: 9780819571854
Publisher: Wesleyan University Press
Publication date: 02/08/2012
Series: Wesleyan Poetry Series
Sold by: Barnes & Noble
Format: NOOK Book
Pages: 214
File size: 1 MB
Age Range: 18 Years

About the Author

<P>Translator Djelal Kadir is Dolores K. and Walter Neustadt Jr. Professor of Comparative Literature at the University of Oklahoma and editor of World Literature Today.</P>

Read an Excerpt

CHAPTER 1

Primeiros poemas

Pirandello I

A paisagem parece um cenário de teatro.
É uma paisagem arrumada.
Os homens passam tranqüilamente com a consciência de que estão representando.
Todos passam indiferentes como se fosse a vida ela mesma.
O cachorro que atravessa a rua e que deveria ser faminto tem um ar calmo de sesta.
A vida ela própria não parece representada:
as nuvens correm no céu mas eu estou certo de que a paisagem é artificial eu que conheço a ordem do diretor:
— Não olhem para a objetiva!
e sei que os homens são grandes artistas o cachorro é um grande artista.


Pirandello I

The landscape is like a stage set.
It is a designed landscape.
Men go by calmly conscious that they act.
All go by with indifference as if life was playing itself.
The dog that crosses the street and should have been hungry has a tranquil, sleepy look.
Life itself does not seem enacted:
clouds are running in the sky but I am sure the landscape is artificial since I know the director's command:
— Do not look at the camera!
and I know that men are great actors,
the dog is a great actor.

Translated by Ricardo da Silveira Lobo Sternberg


Pirandello II

Sei que há milhares de homens se confundindo neste momento.
O diretor apoderou-se de todas as consciências num saco de víspora.
Fez depois uma multiplicação que não era bem uma multiplicação de pães de um por dez por quarenta mil.
Tinha um gesto de quem distribui flores.
A mim me coube um frade um pianista e um carroceiro.
Eu era um artista fracassado que correra todos os bastidores vivia cansado como os cavalos dos que não são heróis serei um frade um carroceiro e um pianista e terei de me enforcar três vezes.


Pirandello II

I know there are millions of men mixing themselves up this moment.
The director took hold of all consiousnesses and keeps them in this bag of hornets.
Then he multiplied them not quite as bread was multiplied by ten, by forty thousand.
His gesture was as if distributing flowers.
A monk, a pianist, a wagon driver was my lot.
I was a failed artist who had exhausted all the backstages I felt as tired as the horses of those who are not heroes I will be a monk a wagon driver and a pianist and I shall have to hang myself three times.

Translated by Ricardo da Silveira Lobo Sternberg


Poesia

Deixa falar todas as coisas visíveis deixa falar a aparência das coisas que vivem no tempo deixa, suas vozes serão abafadas.
A voz imensa que dorme no mistério sufocará a todas.
Deixa, que tudo só frutificará
na atmosfera sobrenatural da poesia.


Poetry

Allow all visible things to speak allow the surface of all that lives in time to speak allow this: their voices shall be muffled.
The enormous voice asleep in the mystery will choke off all other voices.
Allow this, for everything will bear fruit only in the supernatural atmosphere of poetry.

Translated by Ricardo da Silveira Lobo Sternberg


Poema

Deixa que no teu pensamento viajem apenas os pensamentos que estiveram presentes na cabeça do primeiro homem quando ele foi ao teatro.
As estradas em long-shot todas se reuniram numa só estrada que corria entre representações ideais e que ele descobriu estarem presentes na retina do primeiro homem quando ele foi ao teatro.


Poem

Let only the thoughts present in the head of the first man when he went to the theater travel in your own thoughts.
The roads, all filmed in longshots
came together in a single road that ran between ideal performances and that he discovered to be present in the retina of the first man when he went to the theater.

Translated by Ricardo da Silveira Lobo Sternberg

CHAPTER 2

Pedra do sono

Homem falando no escuro

Dentro da noite ao meu lado grandes contemplações silenciosas;
dentro da noite, dentro do sonho onde os espaços e o silêncio se confundem.

Um gesto corria do princípio batendo asas que feriam de morte.
Eu me sentia simultaneamente adormecer e despertar para as paisagens mais quotidianas.

Não era inconfessável que eu fizesse versos mas juntos nos libertávamos a cada novo poema.
Apenas transcritos eles nunca foram meus,
e de ti nada restava para as cidades estrepitosas.

Só os sonhos nos ocupam esta noite,
nós dois juntos despertamos o silêncio.
Dizia-se que era preciso uma inundação,
mas nem mesmo assim uma estrela subiu.


A Man Speaking in the Dark

Within the night at my side great silent contemplation;
within the night, within the dream where space and silence are one.

A movement started up from the beginning,
with a beating of wings that were the wings of death.
I felt myself asleep and simultaneously awake to all the scenes of every day.

I did not mind admitting that I wrote verses but together we freed ourselves from each new poem.
No sooner written than they were not mine and nothing of you remained for the clamoring cities.

Only our dreams matter to us this night.
We two together waken the silence.
It was said that what was needed was a flood,
but not even a single star rose up.

Translated by Alastair Reid


Espaço jornal

No espaço jornal a sombra come a laranja a laranja se atira no rio,
não é um rio, é o mar que transborda de meu ôlho.

No espaço jornal nascendo do relógio vejo mãos, não palavras,
sonho alta noite a mulher tenho a mulher e o peixe.

No espaço jornal esqueço o lar o mar perco a fome a memória me suicido inútilmente no espaço jornal.


Daily Space

In the daily space the shadow eats the orange the orange throws itself into the river,
it's not a river, it's the sea overflowing from my eye.

In the daily space born out of the clock I see hands not words,
late at night I dream up the woman,
I have the woman and the fish.

In the daily space I forget the home the sea I lose hunger memory I kill myself uselessly in the daily space.

Translated by W. S. Merwin


Janelas

Há um homem sonhando numa praia; um outro que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo de uma árvore; outro que perdeu seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo sua hora seu mistério seu mêdo da palavra véu;
e em forma de navio há ainda um que adormeceu.


Windows

Here is a man dreaming along the beach. Another who never remembers dates.
Here is a man running away from a tree; here is another who's lost his boat, or his hat.

Here is a man who is a soldier;
another pretending to be an airplane;
another forgetting his hour, his mystery his fear of the word veil,
and in the shape of a ship,
here still is another who fell asleep.

Translated by Jean Valentine


Poema

Meus olhos têm telescópios espiando a rua,
espiando minha alma longe de mim mil metros.

Mulheres vão e vêm nadando em rios invisíveis.
Automóveis como peixes cegos compõem minhas visões mecânicas.

Há vinte anos não digo a palavra que sempre espero de mim.
Ficarei indefinidamente contemplando meu retrato eu morto.


Poem

My eyes have telescopes trained on the street trained on my soul a mile away.

Women come and go swimming in invisible rivers.
Cars like blind fish compose my mechanical visions.

For twenty years I've not said the word I always expect from me.
I'll go on indefinitely gazing at the portrait of me, dead.

Translated by W. S. Merwin


Dentro da perda da memória

A José Guimaraes de Araújo

Dentro da perda da memória uma mulher azul estava deitada que escondia entre os braços desses pássaros friíssimos que a lua sopra alta noite nos ombros nus do retrato.

E do retrato nasciam duas flores
(dois olhos dois seios dois clarinetes)
que em certas horas do dia cresciam prodigiosamente para que as bicicletas de meu desespero corressem sôbre seus cabelos.

E nas bicicletas que eram poemas chegavam meus amigos alucinados.
Sentados em desordem aparente,
ei-los a engolir regularmente seus relógios enquanto o hierofante armado cavaleiro movia inutilmente seu único braço.


Within the Loss of Memory

To José Guimarães de Araújo

Within the loss of memory a blue woman reclined hiding in her arms one of those cold birds that the moon floats late at night on the naked shoulders of the portrait.

And from the portrait two flowers grew
(two eyes two breasts two clarinets)
that at certain hours of the day grew prodigiously so that the bicycles of my desperation might run over her hair.

And on the bicycles that were poems my hallucinated friends arrived.
Seated in apparent disorder swallowing their watches with regularity while the hierophant armed as horseman uselessly moved his lone arm.

Translated by Djelal Kadir


Noturno

O mar soprava sinos os sinos secavam as flores as flores eram cabeças de santos.

Minha memória cheia de palavras meus pensamentos procurando fastasmas meus pesadelos atrasados de muitas noites.

De madrugada, meus pensamentos soltos voaram como telegramas e nas janelas acesas toda a noite o retrato da morta fez esforços desesperados para fugir.


Nocturne

The sea blew bells the bells dried the flowers the flowers were heads of saints.

My memory full of words my thoughts seeking phantoms my nightmares many nights overdue.

At dawn, my thoughts set free flew like telegrams and in windows lit through the night the portrait of the dead woman struggled desperately to flee.

Translated by Djelal Kadir

CHAPTER 3

O engenheiro

A lição de poesia

1.

Tôda a manhã consumida como um sol imóvel diante da fôlha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor desabrochava no verão da mesa:

nem no meio–dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.

A noite inteira o poeta em sua mesa, tentando salvar da morte os monstros germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas de palavras, circulando,
urinando sôbre o papel,
sujando–o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão da idéia fixa, carvão da emoção extinta, carvão consumido nos sonhos.


The Lesson of Poetry

1.

The entire morning spent like a motionless sun before the blank page:
beginning of the world, new moon.

You could no longer trace so much as a line;
neither name nor flower bloomed in the table's summer.

not even in the paper's midday brightness, paid for daily (even though paper accepts any kind of world).

2.

All night the poet at his desk, trying to save from death the monsters germinated in his inkwell.

Monsters, worms, phantoms of words — meandering,
urinating on the paper,
smearing it with their carbon.

Carbon from the pencil, carbon of obsessions, carbon of extinct emotions, carbon consumed in dreams.

3.

A luta branca sôbre o papel que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas porém imóveis — naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas nas águas salgadas do poeta e de que se servirá o poeta em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade menor que a do ar.

3.

White struggle on the paper which the poet resists,
white struggle of blood flowing from his saltwater veins.

The physics of fear discerned in daily gestures; fear of things that never alight and yet are immobile — unstill still lifes.

And the twenty words collected in the saltwater of the poet,
to be used by the poet in his efficient machine.

Always the same twenty words he knows so well: their operation,
their evaporation, their density less than the air's.

Translated by Richard Zenith


O fim do mundo

No fim de um mundo melancólico os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar a morte. Sei que cidades telegrafam pedindo querosene. O véu que olhei voar caíu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
dêsse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa o sonho final.


The End of the World

At the end of a melancholy world men read the newspapers.
Indifferent men eating oranges that flame like the sun.

They gave me an apple to remind me of death. I know that cities telegraph asking for kerosene. The veil I saw flying fell in the desert.

No one will write the final poem about this private twelve o'clock world.
Instead of the last judgment, what worries me is the final dream.

Translated by James Wright


As nuvens

As nuvens são cabelos crescendo como rios;
são os gestos brancos da cantora muda;

são estátuas em vôo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves de países de vento;

são o ôlho pintado escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça nas varandas do sono;

são a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados;
a medicina, branca!
nossos dias brancos.


The Clouds

The clouds are hair rising like rivers;
are the white gestures of the mute singer;

are statues in flight at the edge of a sea light fauna and flora of countries of wind;

are the painted eye sliding motionless;
the woman who leans on the edges of sleep;

are the death (the awaited for)
behind the closed eyes;
the remedy, white!
our white days.

Translated by Ashley Brown

(Continues…)


Excerpted from "Selected Poetry 1937–1990"
by .
Copyright © 1994 Wesleyan University.
Excerpted by permission of Wesleyan University Press.
All rights reserved. No part of this excerpt may be reproduced or reprinted without permission in writing from the publisher.
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Table of Contents

Preface,
João Cabral de Melo Neto Chronology,
Primeiros poemas (1900),
Pedra do sono (1940-1941),
O engenheiro (1942-1945),
Psicologia da composição (1946-1950),
O cão sem plumas (1949-1950),
Paisagens com figuras (1954-1955),
Uma faca só lâmina (1955),
Morte e vida severina (1954-1955),
Quaderna (1956-1959),
Serial (1959-1961),
A educação pela pedra (1962-1965),
Museu de tudo (1966-1974),
Agrestes (1975-1985),
Crime na Calle Relator (1987),
Sevilha andando (1989),
Bibliography of Works by João Cabral de Melo Neto,

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